quinta-feira, 26 de maio de 2016

Um texto por dia

Menino que nasceu no último texto completou 2 anos na segunda-feira. Reunimos os parentes e algumas amigas que acompanham mais de perto a vida do Estevan para um almoço. Isso consumiu energia, mudou o foco das atenções, cansou o corpo, por isso também, fiquei uns dias ausentes da escrita.

E digo também, porque escrever sobre o nascimento do Estevan ainda mexe bastante comigo. Com questões ainda não respondidas, feridas ainda não curadas. Estevan nasceu em 23 de maio de 2014, às 18h55min. Eu? Eu venho nascendo, renascendo, descobrindo e redescobrindo desde lá. Muitas partilhas e muitas descobertas ainda acontecerão nas próximas páginas, nos próximos caracteres.

A ideia inicial era um texto por dia, desde o dia 01 de maio até o dia 23 do mesmo mês. E, então, decidir o que fazer com o blog e aspirar novas pequenas ações para a vida. Eu não consegui um texto por dia. Tem dias que menino mama mais, quer mais colo, mais atenção, mais presença. O corpo de mãe relaxa e aquece ao lado do corpo de filho, a gente sente o friozinho que passeia do lado de fora das cobertas, sente o sono se chegando e não encontra coragem de levantar, os olhos se fecham aos pouquinhos e quando a gente vê já é a próxima mamada da madrugada.

Aprendi, com isso,  que ainda não é momento de assumir mais um compromisso diário, mas é sim possível ampliar o horizonte dos fazeres. Escrever um ou dois textos por semana é possível, é terapêutico também. Me dá tempo de deixar passar pelo corpo as sensações e reorganizar o que provocam em mim, o que dizem, ou me ensinam.

Tenho vontade de escrever sobre as escolhas que fiz nesses dois anos do Estevan, sobre a mudança de vida, de estilo de vida. Sobre o olhar para a maternidade antes da gestação e a brusca mudança de discurso, que começou já na gestação.


Criança não tem querer. Deixar chorar. Falta de laço. Algumas coisas amaciadas pela pedagogia, outras ainda duras, que possivelmente diz muito da minha infância e que se transformam, se transformam em olhar atento. Em respeito. Em maternidade consciente. Criação com apego. Disciplina positiva. Todas essas coisas em processo de aprendizagem, mas que quero registar em palavra escrita, para ser história de vida de mãe, para ser história de vida de filho, para que não se perca da memória. 

No próximo texto, os primeiros dias de vida do menino e as dores de ferida difícil de cicatrizar. 

sexta-feira, 20 de maio de 2016

Parto-me (2)


22.05.2014, 21h08min, no meio de uma contração
Parto-me parte 2 não está fácil de sair. Revisito as fotos, os vídeos, ouço as músicas e cada vez que faço isso
sentimentos novos vem surgindo. Sentimentos do antes, do durante, do agora. Sensações que me invadem, me tiram sorrisos e lágrimas.
Eu sinto como se, sinto como se em 2 anos e 9 meses eu tivesse aprendido mais que em 30 anos de vida. Sinto como se eu tivesse começado a me conhecer.


É um desejo de voltar lá atrás, voltar e fazer tudo de novo, diferente, usando tudo o que eu aprendi desde lá. Mas eu sei, também que, tudo que acontece é aprendizagem. A Vanessa que estava lá é semente da Vanessa de hoje. A Vanessa que estava lá fez o tinha condições de fazer. E viveu o que precisava para aprender vai sobre a própria vida.

Mas, enfim. 22 de maio de 2014, fim de tarde, por volta das 16h30, uns minutos a mais. A bolsa rompeu. Líquido escorrendo perna abaixo. Eu nem sabia ainda se poderia parir em casa, ou teria de ir para o hospital. A coleta de 24 horas de xixi tinha ido para o laboratório pela manhã e eu aguardava o resultado.

Pai do Estevan saía do trabalho as 17h. Pedi que passasse no laboratório para pegar o resultado. Era importante tê-los em mãos. Entrei em contato com a parteira, encaminhei resultado dos exames por e-mail para o obstetra. Tudo certo com os exames. Que alívio. Ou não. Eu tenho  a sensação de que naquele momento eu já não sabia mais se todo aquele movimento era bom mesmo, e se não desse certo? Vamos lá, o corpo sabe parir! Eu tinha certeza de que parir seria libertador, transformador! Uma transformação acontecida no instante do parto. Eu certamente não imaginava que o parto de uma nova mulher seria tão longo, dolorido e bonito.

A Doula. Ela está viajando, mas fizemos contato anterior com outra pessoa. Outra Doula. Se fosse preciso ela nos acompanharia. Um encontro. Eu fiquei um pouco envergonhada de fazer contato com ela. Devíamos ter conversado mais. Nos encontrado mais. Ela já conhecia o restante da equipe, isso me tranquilizava, já haviam trabalhado juntos. Mas e a minha intimidade com ela? Eu não pensei nisso. Eu queria parir. O corpo sabe parir!

Organizamos a casa. Aquecedores no corredor e banheiro. Descobri que esses aquecedores pequenos não servem de nada. Fazem um vento quente ótimo para secar banheiro em dia de umidade, mas como aquecedores de ambiente? Um desastre. Ou seria o frio intenso que fazia e minha variação de temperatura?

Pode ir para o chuveiro. Fica um tempo lá. 1 hora. Se as contrações continuarem é trabalho de parto. Se pararem. Alarme falso. Eu fui. E aquela hora não passava nunca. Sabe quando as mães gritam "desliga esse chuveiro, á faz 1 hora que tá nesse banho!". Elas nunca olharam no relógio. 1 hora embaixo do chuveiro é muito tempo. Muito tempo mesmo. Mesmo com o banquinho para sentar.

Era um dia frio. Bem frio. O banho precisava ser quente. Além da pouca eficiência dos aquecedores, a chave (disjuntor) do chuveiro também caía. Alguns minutos de banho bem quente e alguém precisava religar a chave. Que saco. Interrompia. Atrapalhava. Que vergonha. Nem o chuveiro não funciona direito.

Eu me preocupei bastante com o que precisava para parir em casa. Acho que faltou pensar no que eu queria para parir em casa. A primeira coisa é sim importante. A infraestrutura. Mas, e os meus desejos? E a conexão com o corpo, com o bebê?

É um momento íntimo. Não é bom muitas pessoas por perto. Mas se é para nascer em casa é para nascer com as pessoas que vivem na casa, não? Eu queria que meu irmão estivesse junto. O pai da criança também, claro! Mas queria também que Mateus estivesse com a gente . Mas, não pode muita gente. Acatei. Não ouvi o meu desejo. Acatei.

Iuri fez risoto. Comprou algumas coisas para comer. Ficamos em casa, os três. Conversando. Anotando contrações. Todas. Sem perder nenhuma. Dançamos? Não, eu esqueci de dançar na gestação. E as músicas. Eu estava fazendo seleção de músicas. Salvando no notebook, vai que a internet não funcionasse, eu teria as músicas salvas para ouvir. Mas, uns dias antes, notebook estragou. Ainda deu tempo de salvas algumas numa lista do youtube. Algumas. Poucas. Não exatamente as que eu queria. E elas repetiam a todo instante. Repetiam desesperadamente.

Entre uma contração e outra, a gente dormia um pouquinho. Eu tenho uma habilidade incrível para dormir. Assistindo aos vídeos pude conferir o comentário do Iuri sobre isso.

As contrações e as dores aumentavam. Já passava da meia noite. Chamamos a Doula. Eu não lembro quando ela chegou.  E lembro menos ainda quando o resto da equipe chegou.

Quem sabe vamos caminhar, sair do quarto? Não! Eu não conseguia. Talvez tenha ido até a cozinha alguma fez. Mas a imagem que eu tenho era de ir até um pedaço do corredor e voltar. Não, eu não queria sair dali. Eu não conseguia. Massagens, florais, banho (quente-frio), bola. Rebola. Mexe os quadris. Inspira. Solta o ar pelo canal da vagina.

A gente tava na cama. A Cibele nas minhas costas, massageando. Foi um momento intenso. Na minha memória registrado como "vamos lá, tu vai conseguir". Cibele tinha lindas palavras de incentivo. E eu ali, com minha dificuldade de acreditar em elogios.

Conecta com o bebê, pode chorar. Fala tudo que está sentindo. Pode gritar. Vocaliza. E se teve uma coisa que que fiz foi gritar, gritei por todos os silenciamentos da vida. Gritei por todas as vezes que calei. Que acatei.
23.05.2014, 13h06. 
Pode falar o que tu sente, o que tu tem vontade. Chama teu filho para o mundo. E eu chamei, mas era estranho. Pedi desculpas por não aceitá-lo. Pedi desculpas ao pai dele por não ter contado antes. Mas não consegui falar de amor. A frase veio, tocou na minha garganta, mas eu não consegui falar. Eu engoli. Mãe eu te amo. Eu não consegui.

Em algum momento tudo parecia tão artificial. Tem alguma coisa trancando. Não vai descer, tá trancado. Nem mesmo o ar, inspira, solta o ar pelo canal da vagina, nem mesmo o ar imaginário passava ali. Eu não consegui bem dizer o que era, mas falei que trancava. Coloquei a mão no ventre e dizia: aqui, está trancado,  tem alguma coisa trancando, não vai passar.

Muitas horas já deviam ter passado. Eu me sentia exausta. E se eu dormisse só um pouquinho, será que eu conseguiria?

Os exames de toque doíam insuportavelmente. Estávamos bem. Pressão, temperatura, batimentos cardíacos. Mas as contrações começaram a espaçar. Começaram a enfraquecer. Quase 24 horas de trabalho de parto. Eu acho. 7 cm de dilatação. Eu acho. O bebê está muito alto. Ele precisa descer e girar. As contrações estão fracas. Não vão conseguir empurrá-lo.  É melhor ir para o hospital, quem sabe com a ocitocina sintética as contrações retomem e o trabalho de parto avance.

O plano B era o hospital centenário. A equipe me acompanhava até, mas não teriam como entrar. A bolsa no menino estava mais ou menos arrumada. A minha, nada arrumada. Eu ia parir em casa. Parto domiciliar planejado. Nada das minhas roupas me serviam mais. Fazia muito frio. Peguei o que restava de roupa limpa e que ainda servia.

Iuri ajudou a descer as escadas. Via luz do dia. Mas não vi as pessoas que andavam pela rua. Era sexta-feira, 23 de maio de 2014, por volta das 16h.  Fui no banco de tras, de joelhos. Recebendo as contrações. No hospital, na sala de pré parto ninguém entra. Tendei que a Doula entrasse junto. Não. Não pode. Quando for para a sala de parto chamamos uma pessoa.

A ocitocina sintética entrou e as dores aumentaram. Aumentaram muito. Não tinha posição confortável. Na verdade, só tinha uma posição: deitada! Obedeci. Obedeci, também, por medo de ser maltratada. Que tristeza, em momento de dar a luz precisar passar por isso. Precisar passar pelo medo de ser maltratada. As contrações vinham e eu gritava. Vocalizava. Mas não consegui me mexer, me sentir confortável. Os exames de toque continuavam imensamente doloridos.

A dilatação completou. Mas o bebê continua alto. Um médico olha, chama outro. O que fazer? Se aproximava da hora de troca de plantão, depois me dei conta. Como iam trocar plantão e deixar uma mulher ali, em trabalho de parto.

Vamos fazer cesárea. Tudo o que eu não queria. Cesárea. E eu ainda choro por ela. Choro agora. Na hora não. Não sabia mais dos meus sentimentos. Só sabia de dor e exaustão. Chamem o pai da criança. Ele tem direito! Eu tenho direito. Foi a única reivindicação que eu consegui fazer. Contra o anestesista que me dizia para não gritar, eu só consegui responder com um grito. Mas devo admitir, naquele momento, aquele líquido agindo no meu corpo foi uma sensação ímpar.

Na cirurgia, eu me sentia como um saco de batatas que é empurrado, balançado para todos os lados. Pedi que tirassem o pano na da minha frente. Que queria ver. Não. Não podemos tirar.

Eu fiquei ali, esperando sentir tirarem o bebê da minha barriga. Eles iam tirar e me mostrar. Óbvio né? E puxa de um lado e do outro. E nunca tiravam bebê. A minha esquerda, numa mesinha, tinha um bebê, não era o meu filho, eu não senti tirarem ninguém da minha barriga. Eu não sei de quem eu pensei que fosse aquele bebê. Não tinha outra mãe passando por cirurgia ali comigo. Mas eu não achei que fosse o Nosso Menino. Na minha direita, Cristofer conversava. Dali um momento me falou, como quem quer dizer, mas não quer assustar.  Ali, do lado, nosso filho. Nosso filho? A enfermeira (ou sei lá quem era ela) explicou que ele demorou um pouco para respirar. Mas estava tudo bem. É normal em função do hormônio sintético e da anestesia (e dele ter nascido pela barriga e de ter o cordão umbilical cortado rapidamente). Qual o nome dele? A gente olhou, se olhou. Estevan. Eu ainda brinquei, Estevan Leopoldo. Era sexta-feira, 23 de maio de 2014. 18 horas e 55 minutos.

E toda a paixão que eu parecia não ter sentido naquele momento de exaustão, de hormônios sintéticos, de anestesia, eu sinto agora, ao escrever.  Revisitando a memória, eu sinto como cada pessoa que se envolveu no nosso trabalho de parto se dedicou na forma que pode, na forma que sabia naquele momento, deu de si tudo o que tinha para dar.

Cris, vai com o Estevan. Eu fiquei ali sendo costurada. Depois sala de recuperação. Precisa levantar o quadril e as pernas para receber o bebê. Vai demorar umas quatro horas. Eu estava exausta. Vou dormir para me recuperar e receber o filho. Posso trazer ele? Sim! Sim! Traz! Tu consegue segurar ele? Teve um silêncio, vácuo. Não são sei quanto milésimos de segundo durou. Sei que eu não consegui pensar se não conseguiria. Eu daria um jeito. Traz! Traz o meu filho!

Eu queria parir. Estevan não nasceu de parto normal. Mas, desde lá, venho parindo uma nova mulher! 



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Nesses dias de escrita sobre trabalho de parto escutei e cantei muitas vezes essa música da Bruna Caran, Nascer de novo. É como se ela tivesse sido escrita para mim, para minha experiência de maternidade.


É como se o tempo que eu levei
pra saber tudo o que sei
provasse eu não saber nada.

Por todo o caminho que andei
pra cada passo que dei
voltar ao início da estrada.

E desfazendo cada defeito
desvendando um jeito
desenhando a saída.

Que é pra viagem
ser só de ida,
mas sem haver despedida.

Te ter é como nascer de novo
não reconhecer nada ao redor
desatar o nó, quebrar a casca do ovo
a dura carapaça da dor.

Por tudo aquilo que já pequei
e cada ato que errei
é como estar perdoada.

E livre do que então carreguei
cada cilada em que entrei
de cada porta fechada.

Viver trilhando o caminho certo
é olhar mais de perto
o universo em mim.

Que é pra poder seguir adiante
não me sentir mais distante.

Te ter é como nascer de novo
não reconhecer nada ao redor
desatar o nó, quebrar a casca do ovo
a dura carapaça da dor.

Tenha paciência comigo
Saiba que ainda estou
Sem ver onde piso, é repentino e sem aviso
A terra perdida à pele, a paixão ardida…

Te ter é como nascer de novo
celebra o que em mim é maior
minha nova instância: descobrir a todo instante

cada nuance do que é o amor.

terça-feira, 17 de maio de 2016

Parto-me (1)

Logo após a bolsa romper
Eu queria parir. O corpo sabe parir.

As combinações aconteciam para  o parto domiciliar. Eu queria parir. Me emocionava os relatos de parto. Eu queria parir, queria viver tamanha emoção.

As semanas avançavam e o peso aumentava. Precisa cuidar a glicose. Pode acontecer que tenha diabete gestacional. E ai o plano de parto domiciliar se esvai. Que merda! Tivesse eu continuado a fumar e a comer menos doces teria feito menos mal? Que merda!

As semanas passavam... Eu continuava trabalhando manhã e tarde e assim segui até a semana anterior ao nascimento do Nosso Menino. Hoje certamente trabalharia menos, estudaria menos e amaria mais, me amaria mais. O saber é importante, mas  sentir é muito mais.

As semanas seguiam. A doula que me acompanhava tinha proposta de viagem. O que vocês acham, posso ir? Pode ir, se é para o Menino nascer perto de ti, vai te esperar voltar. Fizemos contato com outra doula, se o trabalho de parto iniciasse, ela nos acompanharia.

A gestação se aproximava do fim. Foi pouco tempo nesse movimento preparatório para parir em casa. Não tínhamos conversado junto, todas as pessoas que estariam presentes nesse momento. Eu me sentia um pouco desconfortável, não sabia bem com o que. Penso que tivesse um pouco a ver com o papel central que eu ocupava. Eu não era apoio, não era coadjuvante, eu era a mulher com o filho para nascer. Aquele movimento todo era para me dar suporte no nascimento do Nosso Menino.

Nosso Menino porque ele tinha possibilidades de nome. Mas nome certo, só depois que a gente visse que cara tinha. Chinelinho foi o primeiro apelido, e permanece, ainda há pessoas que o chamam assim. De alguma língua africada: Deus está pensando. Batizado por Mateus e Maria Carolina.

Eu sentia como se tivesse atrapalhando a vida das pessoas. Com se não fosse merecedora do movimento delas. Mas ignorei esse sentimento e segui em frente, com o propósito de um parto humanizado. Ignorando a voz do coração de que algo estava desconfortável.

Eu queria parir. O susto de uma pressão mal verificada, 16 por algum número que não lembro agora, me levou ao hospital. Pressão alta? Socorro! Ao ser atendida tudo já corria bem. Talvez o sentimento de estar perto do fim. A doula que se ausentava do estado. O exame de 24 horas coletando xixi. Logo veio um tanto do tampão, com bastante de sangue. Me assustei, poderia ser sintoma da pressão alta. Voltei ao hospital. Mais exame de toque. Depois fui saber o quanto abusivo são esses exames, feitos assim livremente.

Creio que isso tudo tenha acelerados as coisas.

Na quinta-feira, 22/05, passei o dia com cólicas. Muitas cólicas. Por volta das 16h30 levanto para  ir ao banheiro. Tinha passado a semana em casa, de repouso. Quando chego no banheiro começa a escorrer xixi perna abaixo. Ops... Isso não é xixi!


A bolsa! A bolsa rompeu!

segunda-feira, 16 de maio de 2016

Sobre a forma de nascer

Eu comecei o pré-natal já passava dos 3 meses de gestação. No SUS, precisa aguardar. Estamos lotados. Eunão tinha como aguardar. Já havia deixado que muito tempo se passasse.

Procurei médico particular. Não tinha plano de saúde. A agenda livre mais próxima era daquele mesmo ginecologista-obstetra que me falou no início da gestação  "é só um bebê".

Comecei pré-natal com ele. Um tempo depois consegui a consulta pelo SUS. Mas eu não conseguia largar do médico que  comecei o pré-natal. Agora vejo como exagero. Na época não. Eu tenho pé atrás com médico, precisava ouvir mais de um. Não tinha como descuidar, negligenciar, correr riscos com a gestação a partir dali. Precisava garantir que tudo corresse bem. Talvez fosse a insegurança, reflexo do não desejo. Não sei, seu que foi assim.

Quando a casa engravidou a primeira vez fiz algumas leituras sobre parto e cesárea. Os dois são forma de nascimento, mas cesárea não é parto (há discordâncias, mas eu compreendo assim). Assisti vídeos de parto humanizado, parto domiciliar, parto natural gêmeos.

Ah, os partos domiciliares. Eram lindos. Mas uma realidade muito distante. Imagina, eu parindo em casa? Não, não era pra mim.

Conversei com o GO (ginecologista obstetra) sobre parto, cesárea e valor. Fiquei escandalizada ao descobrir que o acompanhando do trabalho de parto e parto normal era muito mais cara do que a realização da cesárea. Como assim mais caro? Simples, se tu entrares em trabalho de parto início da manhã eu preciso cancelar toda minha agende, até o bebê nascer. Tu paga pelo meu tempo. A gente paga pelo tempo do médico para que ele nos acompanhe naquilo que nosso corpo sabe fazer desde sempre. Parir!

Decidi que continuaria com o acompanhamento do pré-natal particular (e pelo SUS também, quanto exagero) e o parto seria pelo SUS. Olha, o hospital da ULBRA em Canos é muito bom. E algumas outras sugestões de lugares surgiram. Não. Eu vou parir no Hospital Centenário, quero que menino nasce em São Leopoldo. Cidadão Capilé. No Centenário? Sim. No Centenário.

Aquele desejo de um parto longe do hospital permanecia na minha cabeça. Sem intervenções. Cria no colo logo depois de nascer, sem procedimentos invasivos. Mas tudo bem. Isso não é pra mim.

Mas como eu vou saber a hora de ir para o hospital? E se eu for muito cedo e for submetida a uma cesárea desnecessária? E se eu sofrer violência obstétrica?

É horrível a sensação de medo da violência obstétrica. Em uma hora tão significativa da vida gente. Da vida da mãe que nasce, da vida da criança que nasce, a gente ter medo de ser violentada. No início da vida, quando a gente devia ser acolhida, a mãe e a criança que nascem, temos medo de ser violentadas. Eu tinha medo de ser violentada. Tinha medo de ser enganada. Passada para traz. Machucada. Tinha medo.

É triste que a via de nascimento seja, muitas vezes, determinada por esse tipo de medo. Medo de ser maltratada. Eu sabia da importância do trabalho de parto para a vida do bebê, para a vida da mãe. Eu sabia de muitas coisas que nós dois ganharíamos passando por essa experiência. Eu tinha curiosidades. Eu queria saber como era a dor do parto. Eu queria encontrar a partolândia. Eu queria parir!

Como vou fazer? Uma Doula! Uma Doula pode me acompanhar no início do trabalho de parto em casa. Depois vamos para o hospital. Perto da hora de nascer. É só chegar no hospital e pronto. Eu não lembro como cheguei até a Anita, mas cheguei. Marcamos uma conversa. E ela ascendeu uma luzinha de possibilidade de parir em casa. Me contou dos partos dos filhos dela. Da equipe que a acompanhou. Da possibilidade de parcelamento no pagamento. Eu queria parir! Eu nuca gostei de hospital.

Eu já estava com 33 semanas. Menino crescia na barriga. Marquei consulta com GO do parto humanizado. Mais um médico, um novo olhar sobre o pré-natal. E eu, ao invés de abandonar os outros dois, continuei com os três. Que tamanha insegurança, fico pensando agora! Que tamanho medo! Que tamanha falta de confiança, neles ou em mim, não sei.

Contei história inteira. Não te preocupa com isso. Muitas mulheres que fazem inseminação artificial também se sentem inseguras quando tem a confirmação de estarem grávidas.

O médico fez perguntas diretas. Eu senti como se ele quisesse colocar a prova meu desejo de parir fora do hospital. Acho que maior que o desejo de parir em casa era o de parir longe de um hospital.

Eu queria parir. Sentia que precisava viver aquela experiência, mas não sabia dar nome aos sentimentos. Não sabia falar deles de coração aberto. Não sabia falar. A garganta dava nó. O olho enchia de água.

E o parto Vanessa? Vou parir aqui na sala dos professores. Estarei trabalhando e... Ops... Nasceu! Brincava com as colegas. Essa louca, capaz de ganhar esse guri em casa! Eu ria e dizia "o corpo sabe parir gurias, foi feito para isso." Eu tinha certeza de que o corpo sabia parir.

Li muitos relatos de parto. Assisti vídeos. Me informei sobre o que poderia dar errado em um cesárea, quais eram as falsas indicações de cesárea.  Texto da Melania Amorim falando das indicações reais e fictícias de cesáreas.

O Grupo Nascer Sorrindo, no facebook, foi outra fonte de informações muito importante. Li fragmentos do livro Quando o corpo consente, e também do livro Entre asorelhas: histórias de parto do Ricardo Jones. Além de muitos textos em blogs e sites espalhados pela internet. Conversei muito com uma amiga que tinha parido em casa, dentro d'água.

O corpo sabe parir. Eu tinha certeza disso. Mas tinha também medos. Medo daquilo que eu desconhecia. Algumas vezes pensava se aquilo tudo daria certo. Tinha a sensação de não me sentir merecedora daquela experiência. Não sei se a expressão é bem essa. Mas tudo bem, o corpo sabe parir.


Não consegui assistir ao documentário O Renascimento do Parto, nem O Parto orgásmico. Durante alguma consulta com o Ricardo Jones (GO do parto humanizado), falando sobre as pessoas que acompanhariam o trabalho de parto, ele comentou que o parto era como o sexo. O que acontece se duas pessoas estão transando num quarto escuro e alguém abre a porta e liga a luz? É o mesmo que acontece durante o trabalho de parto! 

Parto é sexo. Parto é empoderamento! Eu tinha muita expectativa de que parir seria um ato libertador pra mim. Eu queria muito chegar na partolândia!

sexta-feira, 13 de maio de 2016

As grávidas precisam de chás, carinhos, colos e paparicos


Durante a gestação me sentia muito instável. Mais que sempre. Cheguei comentar que maternidade e estabilidade emocional são coisas que não andam juntas. Talvez pela circunstâncias em que a maternidade se apresentou para mim, mas também pelas transformações que ela nos provoca. Pelo borbulhar de sentimentos. Pelo borbulhar de vida, de hormônios.


Três dias depois de uma escrita que exalava amor. Outra. Que transpirava medo e insegurança.
Segue o texto de 27.04.2014.


"Tem dias que a gente é menos forte, que os medos vêm à tona. Ontem foi assim. Pode até ter outra pessoa ao lado. Continuamos nos sentindo sós.


Eu me senti tão assim. Tão sozinha. Mesmo com menino na minha barriga. Mesmo com o outro menino ao meu lado.

As lágrimas. Tentei segurar. Não sei pedir colo. Elas, as lágrimas, vieram mesmo assim. escondida, chorei. Chorei porque em breve tem outra vida aqui fora e eu tenho que cuidar dela. Chorei porque a glicose subiu. Substitui o cigarro pelo doce. teria o cigarro feito menos mal? 

Chorei porque me senti feia. Porque me senti uma bola peluda. Chorei de saudade das noites nas ruas. das faltas de horário e organização. chorei porque a gente chora muito mais quando está grávida.

Sequei as lágrimas e levantei. mas não consegui segurar. Precisei pedir colo. Pedir colo também dói. Pedi colo, mas não consegui dividir o que fazia as lágrimas caírem.

Ganhei chá. Ganhei carinho.

Acho que as grávidas precisam de chás e de carinhos. Precisam de colo e paparicos.

A gestação tem seus medos. suas lágrimas.

O tempo de espera é também tempo de transformação."

O tempo tem me ensinado que a triste vêm, às vezes. Que é preciso deixar chorar. Que é importante nomear as coisas que sentimos e que é fundamental compartilhá~las. 
A maternidade me escolheu, e eu me deixe envolver. E todo relato de amor é aprendizagem. E todo relato de dor é aprendizagem.

A construção do amor

Já é o décimo segundo texto e eu ainda nem entrei em trabalho de parto. Até aqui os relatos vem doloridos. Metamorfose. A lagarta morre para que nasça a borboleta. Os dias foram passando. A barriga crescendo. E eu aprendendo a amar. Eu curti muita estar grávida. Ver a barriga crescer. Andar por ai de barriga amostra! A chance da gordinha por a barriga de fora, nesse mundo onde só se mostram barrigas negativas. E eu aproveitei. Usufrui. 
Passava o dia com pelo menos uma das mãos na barriga. Minhas colegas riam, para de cutucar esse guri"! E eu cutucava sim. E ele respondia dançando. 
Uma das imagens que eu acho mais linda de se ver é mulher grávida.. Sempre achei. Esqueci quando me descobri grávida. Depois, tornei a lembrar. Não há como não se encantar com a criação de uma vida. Não há como não se encantar com o florescer do amor.
O texto que segue é de 24 de abril de 2014.
"Eu sempre acreditei que o amor era um sentimento construído", construído dentro da gente, porque vagando pelo mundo ele existe sempre. "Construído a cada passo, a cada encontro, a cada nova descoberta juntos, nos risos e nos choros. Mas achava que amor materno era diferente... Descobriu que tinha uma vida na barriga e transbordou de alegria e amor.
Não foi assim o amor. Ele é do jeitinho que falei primeiro, antecedido ainda por pânico, medo, negação.
Era como concreto, como asfalto no meio do deserto, porta lacrada deixando o quarto escuro. Mas o encontro diário e inevitável fez um feixo de luz encontrar uma fresta na porta, de a água empoçada no concreto encontrar a rachadura e mergulhar na terra, fez semente perdida rachar o asfalto e desabrochar em flor.
Está chegando o tempo do pinto rachar a casca do ovo e sair para conhecer o mundo.
Está chegando o tempo de pegar o pinto no colo e mostrar o mundo para ele.
Está chegando o tempo de sentir o amor transbordar... de deixar o amor transbordar...
E que venha com essa enxurrada de amor todas as aprendizagens. e que onde habitava uma vida, agora habitem" mais.

quinta-feira, 12 de maio de 2016

Onde colocar nossa energia durante a gestação?

No chá de bebê (ou beber), em Santa Maria
Os sentimentos da gestação começavam a elevar os níveis de energia. Precisava reorganizar a vida. A casa. A criança precisa de espaço. Carpete não dá, impossível. Tira o carpete. Coloca piso frio. Cama de casal.  Roupa. Berço. Fralda. Babeiro. Lençol. Carrinho. Bebê conforto. Pomada. Talco. Chá de fraldas.

São listas sobre tudo o que precisamos providenciar. Qual a melhor marca? Mas qual é mais em conta? Dias e dias pesquisando sobre carrinhos, bebê conforto, marca, modelos. O que é melhor, mais leve, mais confortável, mais seguro?

Quantas fraldas de cada tamanho? E roupas? Quantas roupas? Cobertor! Cueiro! Fraldinhas para limpar a bunda!

A gente fica com a cabeça a milhão. Ah, e as lembrancinhas do chá de fraldas? E as lembrancinhas de nascimento?

Queremos que tudo esteja perfeito. Pronto. Organizado para o dia que a cria chegar. Preparamos o ambiente externo, mas muitas vezes esquecemos do essencial. Me surgiu essa questão durante o dia, enquanto pensava sobre o texto, e a noite, encontro essa postagem no facebook, falando justamente disso, de permitir-se um tempo para respirar, para se conectar, com o corpo, com o bebê.


É sim, importante que a gente pense na infraestrura para a chegada do novo ser, mas não precisa investir toda a grana e toda energia nisso. Porque a gente nem sabe se vai querer mesmo usar chupeta, ou mamadeira, ou carrinho, ou berço.

Hoje eu investiria mais em outras coisas, em dançar, ouvir música, meditar! Cuidar da horta, tomar sol. Ficar de bobeira. Contemplar a barriga crescer. Conversar com outras gestantes e mães. Não sobre fraldas, mas sobre vida, transformações.

Manteria o Chá de Fraldas. "Os Chás". Foi muito importante passar um ano sem comprar fraldas. Gratidão.  E ele seria simples, como foram os do Estevan. Chás de fraldas são para nos ajudar e não tomar nosso tempo e nosso dinheiro.

Mas eu ia querer também um Chá de Bênçãos. Esse eu só conheci depois que Estevan nasceu. O  primeiro foi um chá de fraldas, com uma roda de mulheres e outro foi uma roda só de mulheres. Deixo um link falando um pouquinho dele. Eu ia querer. Chá de Bênção é sabedoria feminina, compartilhada com afeto.

E ia me aprofundar nessa história de conexão comigo e com o bebê. Porque nem só de contrações se faz um parto e nem só de fraldas e amamentação se faz um puerpério.



quarta-feira, 11 de maio de 2016

O Sentimento de despedida

Hoje eu fiquei enrolando. Pensando no aniversário de 2 anos do Estevan, vai se uma comemoração bem pequenininha. Festividade para reunir a família dele. Mas eu gosto de pensar nos detalhes, fazer bonitinho.  Ele também está enrolando. Ou melhor, rolando. Num sono pouco tranquilo. Domingo correu muito mais que o costume. Pode ser que tenha dores musculares. Não sei.

O processo de transição do desespero ao amor foi de muitas lágrimas, de despedidas, mortes. Eu encontrei um texto, escrito em 15 de janeiro de 2013, enquanto eu começava a arrumar meu quarto, para que Estevan, que ainda não tinha sexo, nem nome, coubesse nele também.

"Nunca, arrumar o quarto esteve tão relacionado com arrumar a vida". Sabe, aquelas faxinas gigantes que a gente faz que coloca entulho fora, mudas os móveis de lugar, pois eu acho que elas têm muito haver uma reorganização interna da gente. "E agora não estou apenas arrumando a minha vida, mas estou arrumando um lugar em minha vida para outra vida". Eu que tinha o discurso de que nunca mudaria minha vida por outra pessoa.

"É difícil, eu sinto como se minha vida estivesse sido roubada. Como se aquilo que eu fui um dia fosse tirado de mim, só me restando agora acenar para o passado. Um passado que foi ontem, mas que já parece tão distante.

No meio das arrumações peguei uma pasta com amostras de fotos da minha formatura... Observei em como eu estava gorda, mas pelo menos meu filho vai olhar essas fotos e ver como a mãe era feliz". ERA feliz.  "E aí me dei conta do  sentimento de despedida do passado e de como essa transição para a maternidade está sendo difícil. Do ar de tristeza eu eu tenho carregado comigo". Esse sentimento de despedida continuou em mim por muito tempo, foram despedidas de coisas que se construíram em mais de 30 anos e que morriam aos poucos, para que eu, mulher, filha e mãe, pudesse renascer.

"Eu ainda penso que não quero ser mãe, penso que não queria estar grávida, penso no que poderia estar fazendo agora se tivesse abortado. Não gosto de pensar isso. Queria pensar no meu filho, no nosso amor, na vida, mas eu estou sem chão, completamente sem chão...

Eu sei que vai passar, mesmo com medo que não passe, e que descobriremos o amor!

Acho engraçado, de certa forma estranho, como o pai da criança tem sido significativo no meio da tempestade, de como a presença dele afasta os monstros. Fico pensando que precisei ficar grávida para deixar alguém chegar tão perto de mim."


Foram dias de muitas lágrimas, de insegurança, de um não querer querendo, de um querer não querendo. As conversas com a barriga e com a vida que a li cresciam eram tecidas de afeto e desejo ver o amor nascer... "eu prometo que vou aprender a ser mãe, eu prometo". E levava comigo a certeza de que não carregaria culpa por tudo que foi sentido nos três primeiros meses. Culpa que nunca carreguei, por conseguir compreender aquele momento como processo.

terça-feira, 10 de maio de 2016

Do direito a paternidade

Os primeiros três meses de gestação foram enlouquecerdores... Insanos. Eu só conseguia pensar que tinha fudido com a minha vida e com a vida do pai do Estevan.

E se eu tiver o bebê. Vou contar? Não vou contar? Se o caminho fosse o aborto, eu já havia decidido. Seria solitário. Quer dizer. Não sei se dá para chamar de decisão as "escolhas" que a gente faz no meio do caos, mas enfim, seria assim. Em silêncio.

Muitas vezes pensei em ir embora de São Leopoldo. Uma tentativa de fugir do "problema".  Na época achei um concurso para professora em João Pessoa, na Paraíba. Quando fazia faculdade, queria muito fazer mestrado lá, pela referência que são em Educação Popular. Todo o desejo de morar lá borbulhou novamente em mim.  Pensei mesmo em me inscrever. Talvez até tenha preenchido a ficha de inscrição. Iria embora, grávida. Ninguém precisava saber como foi. Quando foi. Criaria a cria por lá. Sozinha.

 Como assim, criaria a cria por lá? Longe de todo mundo? E o direito dela em saber quem é o pai. E o direito do pai saber quem é ela. Eu não conseguiria viver com um segredo tão grande. Eu não achava que fosse justo com a criança viver com esse segredo. Ela tinha pai, tinha direito de saber sobre a paternidade.

Pensei muito sobre isso. Precisava ser uma questão bem pensada. Porque eu ia carregá-la por todos os dias da minha vida. Eu vou contar! Não acho justo que eles não saibam da existência um do outro.

E quando eu decidi sair do buraco em que eu havia entrado, tratei de chamá-lo para conversar. Marquei obstetra, o pré-natal já tinha três meses de atraso. E marquei um encontro com uma amiga que lê cartas e que, duas vezes já tinha anunciado uma gravidez na minha vida.

Meu encontro com ela acabou acontecendo primeiro. E foi bom. Falei do sentimento de incompetência por não ter abortado. Ela olhou firme nos meus olhos e disse "se tu quisesse mesmo abortar teria feito".  Hoje eu me dou conta que o não querer era mais medo do desconhecido. Medo de me doar para outra pessoa. Ela também falou do sentimento de culpa que eu carregava por aquela gestação. E me fez entender que eu não tinha feito aquele filho sozinha.

Uns dias depois encontrei com pai do Estevan. Eu não sabia que reação ele teria. Pensava que como eu tive três meses para começar a aceitar o fato de estar grávida, ele também tinha direito de ter o tempo que julgasse necessário para me dizer alguma coisa. Poderia ir embora naquela hora e voltar no outro dia, na outra semana, no outro mês, ou não voltar mais.

E depois de um tempo de conversa. Vamos criar então. Vamos criar! Hoje me dou conta da importância daquela frase para os meses seguintes de gestação. Hoje me dou conta de como aquela decisão, tomada de forma consciente, provoca movimentos positivos, ainda hoje no meu exercício da maternidade.

domingo, 8 de maio de 2016

Só para contar como é bom escrever!

HojE é domingo, dia das mães. Tem muita vida, muito sentimento ainda para ser posto no papel. As primeiras partilhas foram intensas. O último texto foi pesado. Cansei. Preciso dormir, mais cedo. Descansar.

Estevan fez um soninho mais cedo e agora brinca do meu lado. Querido. Cheio de assunto.

Pensei em nem escrever nada. Mas estou aqui. Digitando. O que combinei comigo, sete dias atrás foi um texto por dia. Até dia 23 de maio. Depois? Depois não sei. Estou gostando de escrever. Estou gostando de saber de gente que tem história parecida. Estou gostando de gente que lê, comenta, incentiva. Oferece abraço. Se sente abraçada.

Senti que escrita seria exercício de cura. Está sendo. As mãos digitam, mas quem dita é o coração. A razão? Corrige uma ou outra palavra. Escrever está sendo como cultivar um canteiro. Todo dia um cuidado. Um olhar. Um crescimento.

"Mamãe, vem brincar!".


Boa noite. Feliz Dia das Mães!

Sobre desespero, chás e aborto.

O texto de hoje quase não saiu. Não sei se vai sair. Voltamos do passeio da tarde. Mamain... Mamain... Mamain... Alguém pode dar atenção para esse menino uns 5 minutinhos pra eu arrumar a janta? Ah, não tem ninguém. É, somos só nós dois. Mamain... Mamain... Mamain... Numa exigência de atenção que me fez retomar a leitura no livro da Ligia e da Andreia, sobre disciplina positiva e educação não violenta:Educar sem violência: criando filhos sem palmada. Duas páginas. Mamain... Mamain...

Olho para o tanto que aprendi até aqui e me assusta o quanto  ainda devo aprender. Mudar. Melhorar.

Estava desistindo do texto quando encontrei partilha da Genifer Gerhardt. "Hoje vejo calendário de lua, entendo tristeza como tristeza, e só". Foi um acalanto para minha alma.

Criança dormiu. Levantei para escrever. Inhééé... Mamain... Estou fazendo o exercício de cada dia usar menos o celular perto dele. Mas se quero texto, não vai ter jeito. Amamentar digitando. Ele mamou, dormiu, se aninhou encostado em mim.

O tema é difícil. Pesado. Pode ser isso também, pensei agora. Gravidez indesejada. Nenhuma mulher é obrigada a ser mãe. Trazer à memória um momento tão tenso pode estar nos rodeando de energia mais densa. Mas é parte da vida. Não carrego culpas. Entendo como dor que precisou ser vivida. Superada.

Eu fiquei em pânico. Acabei com a minha vida e com a vida do pai do Estevan. Pensava eu. Sabia que a vida não era das mais fáceis para ele. Estraguei tudo. Carregava culpa daquela gravidez. Na minha cabeça não existia o "nós tínhamos engravidado". Não. Eu tinha engravidado. Que merda eu tinha feito.

Fala com a fulana, consegue o contato de uma clínica de aborto. Certamente ela tem.

Eu não podia fazer o contato. E se não desse certo, e se barriga crescesse? Ela ia saber que era para mim. Que tentei abortar e agora estava ali, carregando uma barriga que eu não queria carregar.

Chá de canela é abortivo, lembrei eu. Pesquisa no Google. Chá disso. Daquilo. Daquele outro. Canela e alecrim. A casa fedia a chá. Não tomei o chá de arruda. Não achei. Não quis achar? Pode ser. Hoje vejo grávida evitando saquinho de chá de maçã com canela. É abortivo. Eu dou risada. Abortivo. Aham, super abortivo, cuidado!

O endereço da clínica. Mudou. Está do outro lado do estado. Minha nossa. Do outro lado? É muito longe. E se eu passo mal? E que desculpa eu vou dar para viajar até lá? Mais um pedaço de mim morria. Minha chance se foi. E agora?

Descia escadas de olhos fechados. Atravessava a rua sem olhar para os lados. Jogava vôlei procurando uma caída feia. E nada. Um número significativo de gestações não ultrapassam os três meses. Eu desejava estar nesse grupo.

Eu não queria estar grávida. Sai da minha barriga. Sai daí. Mas ao mesmo tempo em que procurava meios de me livrar dela, abandonava aos poucos os hábitos menos saudáveis. Cervejas e cigarros.

Em outra conversa. Ciclana encontrou uma clínica de aborto. É mesmo? Que bom. E onde é? Perguntei como quem nada queria. Guardei endereço na memória e depois no papel. Fui lá uma, duas, três vezes. Nem sinal de que houvesse algo funcionando ali. Andei pelas ruas de Porto Alegre procurando placas, com códigos indicando locais que fazem aborto. Ruas sujas. Sombrias. Lugares feios. Não encontrei. Se tivesse encontrado entraria? Não sei. Eu não sei.

E remédio? Por que não toma um remédio? E se não dá certo? E se eu morro? E se criança fica com problema. Eu não queria estar grávida. Mas também não queria que criança tivesse problemas. E cada dia diminuía o cigarro e a cerveja.

Diminuía a vida em mim também. Não conseguia dormir a noite. Morria de sono de dia. Comia. Dormia. Chorava. O mundo era cinzento. Comia. Dormia. Chorava. Foram três meses assim. Foram 10 quilos a mais. Comia. Dormia. Chorava.

Não conseguia olhar uma grávida na rua. Tinha vontade de chutar a barriga até desmanchar. Uma colega e amiga grávida. O assunto na sala dos professores, muitas vezes, era esse. Eu não conseguia ouvir a voz daquelas pessoas. Certo dia ouço a pérola: Hoje em dia só  engravida quem quer. Eu não lembro a minha resposta. Eu olhei, respondi alguma coisa. O que eu queria na verdade? Dizer que elas não sabiam de nada, que eu estava grávida e não tinha sido falta de cuidado. E não era por que eu queria.

O buraco só parecia aumentar. Tio no hospital. Prima também. Mãe com suspeita de doença grave e sem querer fazer tratamento. Deixa ela, eu pensava. Deixa ela. Ela tem direito de decidir. Ela também escondeu da gente a suspeita de doença grave. As tias que contaram. Tenho esperanças de que um dia aprendamos a contar uns aos outros sobre as dores e as alegrias da nossa alma. Do nosso corpo.

Nesse tempo, posei uma noite no hospital cuidando do tio. Dormi num colchão no chão. A cabeça e as energias todas concentradas no útero. O tio chamou. Levantei depressa. O mundo deu meia volta. Caímos os dois. Só lembro quando eu já estava em pé. Que pânico. Vão querer me examinar. Vão descobrir que estou grávida. Ufa! Um copo de água. Só! No outro dia tio contou que eu caí de amores por ele.

Nesse tempo, acabei encontrando de novo com o pai do Estevan. Eu sempre fugia, mas esse dia foi meio inevitável. Ele estava sem chave. Tá, vamos lá em casa então. Ops... Sexo sem camisinha não dá, e se a gente engravida? A gente aborta. Ele também era favorável ao aborto. Foi a minha leitura. Depois, com o tempo, entendi como frase solta, sobre possibilidade remota. Não era frase pensada sobre fato real. Eu carregava a gravidez como problema meu a resolver, não conseguia ver como situação nossa. Contar pra que? Pra mais gente saber de ato ilícito que quero cometer?

E a clínica? Aquela clínica do outro lado do estado. Quero o endereço. Pede pra mim. Eu vou. Vou sozinha. se passar mal depois, chamo alguém pra me buscar. Eu tinha a informação de que até 12 semanas era mais tranquilo o procedimento. Também tinha a informação de que precisava de uma ecografia contando as semanas de gestação.  Enquanto vem o endereço, vou fazer o exame. Pelas minhas contas eram 8 semanas. Eu tinha ainda 4 semanas pela frente para resolver o problema.

Eu, a cada dia falava menos com as pessoas. Inclusive com aquelas que sabiam do "problema". Eram três. Mais aquelas que ficaram sabendo. Não era fofoca, eu sei. Era rede de apoio. Uma informação dessas é pesado processar sozinho, mas quando fiquei sabendo, fiquei magoada. Hoje entendo.

Marquei exame. Era algum dos 10 primeiros dias de novembro. Fui fazer. Era quarta-feira eu acho. De manhã. Pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum... Muito rápido. Sem pausa. Pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum. Era agressivo. Pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum... Senti  vontade de levantar da cama e quebrar tudo. Pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum... Era um barulho ensurdecedor. Pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum pum...  Eu não conseguia olhar no monitor. E eu choro agora, pensado na dor e na boniteza solitárias que existam ali. A boniteza solitária daquela vida, que insistia em crescer. A minha dor solitária, que não sabia como reagir.

10 semanas. O que? 10 semanas! Não pode. Nos meus cálculos são 8. É que conta desde a última menstruação. São 10 semanas. No início é mais preciso o cálculo. Tu não queria? Não. Pois é, esperou demais para resolver.

A fala do médico foi uma pedra gigante em cima de mim. Sai dali com a certeza de que o mundo tinha acabado. Sai dali sem ânimo de erguer os braços. De olhar pra frente. 10 semanas. Eu sou tão incompetente que não consegui nem abortar.

Minha última esperança era um aborto espontâneo. Tanta gente que se cuida e aborta. Eu bem posso estar nesse grupo. Eu não queria estar grávida. Mas o cigarro e a cerveja já não existiam na minha vida. Quer dizer, quase não existiam, porque as vezes não tinha como negar. Não, não vou tomar. É que to grávida. Quero abortar, mas se eu não conseguir, to me cuidando né! Já pensou, linda resposta né?

Eu, desde algum tempo,  defendo a legalização do aborto. Legalizar o aborto não é o mesmo que ser favorável ao aborto. Eu não sou favorável ao aborto. Na verdade, eu não era. Até passar por essa experiência. Quer dizer. Hoje eu sou muito mais favorável a descriminalização do aborto do que era antes.

Uma gravidez não planejada me colocou numa situação de desespero imenso. Me colocou no olho do furacão. E quem consegue analisar, sentir, decidir com consciência quando está no vértice da coisa?

Aborto é crime. É feio. É pecado. É repugnante. Irresponsável. Sujo. Mas, mais irresponsável que tudo isso é a criminalização do aborto. Uma mulher grávida, que não quer estar grávida, não vai procurar pessoas para se aconselhar, pessoas que possam apoiá-la para realizar esse procedimento. Uma mulher grávida e desesperada vai procurar alguém que possa resolver o problema dela da forma mais discreta possível.

Que triste que as coisas sejam assim. Não há como interromper uma gravidez de forma discreta. Como se nada tivesse acontecido.  Não dá pra tirar uma vida da barriga como quem tira espinho do pé. Mas abortar é crime. E se é crime eu tenho que fazer escondido. Eu tenho que fazer sem apoio. Sem abraço. Sem cuidado. Me dói saber que amigas tão próximas tenham passado por isso, sem meu apoio. Sem meu abraço. Talvez eu não tivesse condições, na época, de abraçá-las. Dói saber disso também. Do preconceito que a gente carrega e só desmancha depois. Depois que vive o desespero. A dor. Que se sente morrendo sem saber o que fazer.

Legalizar o aborto não é só dar à mulher o direito de decidir sobre o próprio corpo. É autorizá-la a pedir ajuda. É criar uma rede de escuta antes de sugar uma vida que começa a se instalar no seu útero. É abraçar a mulher grávida e desesperada e ajudá-la a visualizar possibilidades e, se a única possibilidade que ela conseguir visualizar for essa, que sua vontade seja respeitada, porque nenhuma mulher é obrigada a ser mãe.

Eu tenho certeza de que, se eu me sentisse autorizada a pedir ajuda, eu teria desistido da ideia do aborto muito antes. Eu não teria sofrido sozinha (sozinha sim, porque apesar de algumas pessoas saberem, eu evitava falar com elas) por aproximadamente três meses.

Eu fiquei tão desesperada que as poucas vezes que pensei em pensar na possibilidade de olhar para a minha barriga e para a vida que crescia ali eu desisti. Eu não quero. Eu não vou conseguir cuidar de uma criança. Eu não sou obrigada a ser mãe. 

Os dias foram passando... Passando... Já não tinha mais tempo de aborto seguro. Já não tinha mais esperança de aborto espontâneo. Eu vou ter um filho por incompetência. Por não ter conseguido abortar. Esse era o sentimento. A tristeza parecia aumentar. Até que, em algum dia da primeira metade de dezembro eu percebi que se continuasse daquele jeito ia acabar precisando de um psiquiatra. De um monte de remédios e remédios não fariam bem para o bebê. Porque eu não queria ser mãe, mas já não bebia e fumava mais.

Eu levantei da cama. Parei na frente do espelho. Me olhei. Olhei para dentro de mim, pela primeira vez. Olhei para a vida que crescia ali. Coloquei as mãos na barriga. A primeira vez, a primeira fala. Nós vamos começar a conversar, mas sem essa história de crescer e vir me falar que não pediu para nascer.


Pós texto: procurando o link do livro que citei no início da escrita, encontrei esse texto: SER MÃE OUNÃO SER MÃE? - REFLEXÕES SOBRE ABORTO, MATERNIDADE, SAÚDE, ANTICONCEPCIONAIS EDIREITOS. Indico a leitura. Indico inclusive que acompanhem Cientista que virou mãe.

sexta-feira, 6 de maio de 2016

A mulher sabe quando está grávida!

Dia 07 de abril, as 8 horas, quando abriu a farmácia eu já estava na porta. Dia D. Tomada como manda a bula.

Poucas horas depois do sexo.

Não tem como não funcionar. O corpo reagiu.  Inchou. Parecia que ia rasgar. Cólicas. Agora só esperar menstruar.

A mulher sabe quando está grávida... A mulher sabe quando está grávida... A mulher sabe quando está gravida...

Essa frase ecoava o tempo todo na minha cabeça. Era praticamente impossível se concentrar em outra coisa... A mulher sabe quando está grávida.... A mulher sabe quando está grávida....

Final de semana de 20 de setembro teve junção familiar. Aniversário. E eu não conectei com ninguém. Estava de corpo presente... A mulher sabe quando está grávida... A mulher sabe quando está grávida....

Não é possível. Segunda-feira, 23 de setembro. Vou fazer um teste e parar de incircuitar por ai. Um teste não. Um exame de sangue. Positivo. Que merda, deve ter dado algo errado. Quarta-feira. Ecografia transvaginal. Tá grávida? Não sei, tô? Olha, pode ser atraso de menstruação ou princípio de gravidez. Não posso te dar certeza. Ufa! Não deve ser. Não pode ser. Migaaa, to grávida ou não. Não sei. Não quero.

Sexta-feira. Ginecologista.  É só um bebê. Tem certeza? Não pode ter dado errado o resultado? Toma aqui, requisição para outro exame. Quantitativo agora. Ele viu que não adiantava argumentar, mandou eu ver com meus próprios olhos. Vai dar negativo.

Amiga, sabe se tem laboratório de exame de sangue que funcione amanhã (sábado)? Por que, ta prenha? E eu desabei. Chorei. Morri. Comigo foi assim também. 30 anos. Liberdade. Puft.. Engravidei. Não desejei. E agora estão ai, lindos e grandes.

Voltei pra casa aos prantos. Não é. Não pode ser. Eu não quero. Eu não sou obrigada.

Nines. Uma cervejinha na rua. Tô grávida. Pode ser que não, mas tô. A mulher sabe quando está grávida. Mais uma cerveja, por favor. Devia ter pedido uma caixa de lenços junto. Uma criança é um bem pra humanidade. Mais uma cerveja. Eu não tenho como cuidar de uma criança. E a noite seguiu, entres lágrimas, conversas e cervejas.

Segunda-feira. Um novo exame. Qualitativo. Vi o resultado na internet. Positivo. Puta merda!


Nenhuma mulher é obrigada a ser mãe. O corpo é meu e eu decido. 

Sobre ouvir o coração

imagem do google
O texto de hoje estava bem elaborado na cabeça. Era esperar a cria dormir, sentar e escrever. Mas tinha um círculo no meio do caminho. Um círculo de mulheres incríveis partilhando vida, trocando saberes.

Em círculo o coração fala mais alto. Ou talvez o ouvido atento a partilha da irmã, esteja mais atento a nossa própria voz interior. Aos nossos desejos mais verdadeiros. A nossa intuição.

Eu saí de lá me sentindo em débito com o texto de ontem. Sai de lá sentido falta de mais coração, de mais verdade. Sai de lá com necessidade de escrever o que eu queria ter escrito e não escrevi.

Não escrevi porque tenho certo receio de ser julgada. Porque tenho certo receio de ser mal interpretada. Porque é difícil para mim compreender que  ser grata a uma  pessoa por algum bem que ela nos fez é sim compatível com não concordar com outras atitudes dela em outros momentos. Não escrevi porque aprendi que a gente ama, ou odeia e pronto!  Sem perdão. Sem meio termo. Sem capacidade de reconhecer a multiplicidade de desenrolares de cada ato.

Escrevo  cada um desses textos como desejo de me encontrar, de descobrir possíveis novos caminhos a trilhar. De me conectar e reconhecer para onde devo direcionar minha energia, minha potência de vida. Escrevo como exercício de cura. E um exercício de cura não permite meias palavras, sentimentos incompletos, nem o uso de máscaras. Um exercício assim exige verdade, transparência, fidelidade à voz que vem do coração.


Assim, retomo o dito ontem e afirmo que, apesar de discordar e não compreender, ainda,  muitas atitudes do pai do Estevan, eu sou muito grata a ele pela vida do Estevan. E eu tenho uma memória muito linda da forma como nos conhecemos. E eu quero preservar essa memória, porque esse cruzar de histórias, minha e dele, é um pedaço, o início da história do Estevan nessa passagem pela Terra.

quinta-feira, 5 de maio de 2016

As manifestações de julho de 2013

Foto de Bg MundoReal - julho 2013

Há quem diga que as manifestações de julho de 20013 não deram em nada, mas Estevan está ai, quase completando dois anos para provar o contrário.

Mas antes de começar essa história, a história de hoje. A ideia do texto nasceu ontem, enquanto eu escrevia. É parte. Faz parte. Mas o dia, de hoje, passou e eu não consegui sair da cena inicial. A história não desenrolou. Resolvi passar na loja de produtos naturais e comprar ingredientes para fazer um bolo. Peguei Estevan, que com o mesmo sorriso que me deu tchau, estava me esperando. Passamos na padaria. E padaria não é só suco de laranja. É festa também. Saiu de lá tão empolgado que se perdeu na calçada e encontrou, com a testa, um canto de parede. Gelo. Pomada. Voltamos para casa. Cadê a chave? Perdi a chave. Fui no banco colocar créditos para ligar para o meu irmão, tirar saber onde andava, que horas chegava. Serviço indisponível. Pensei em sentar no chão e chorar um pouquinho. Justo hoje que estou de sacolas... tombo, colo, chaves? Vamos revisar as sacolas. Encontrei. Na sacola dos ingredientes do bolo. Chegando em casa. Colo, teta, sono. Nããooo, não pode dormir. E só agora, 00h30, eu sento aqui pra realizar meu propósito.

Então, voltamos as manifestações de julho de 2013. Foi lá que conheci o pai do Estevan.

Numa caminhada. Não lembro muito. Lembro que vi. O guri, que veio de Ijuí. Caminha aqui. Reúne lá. Caminha acolá. Passam os dias. Ocupa aqui. Ocupa lá. "NaRua São Leo" ocupa a praça em frente a câmara de vereadores. Eu não estava mergulhada na coisa, além do trabalho, tinha uma gestante em casa, mas passava pelo acampamento. Eram os primeiros dias, sai do trabalho e fui para a ocupação. O tempo se preparava para chover. Um bando de acampados de apartamento, vão amarrar lonas de que jeito? Pensava eu. O pai do Estevan não era acampado de apartamento. Sabia amarrar lonas. E eu metida, que nem era acampada, fui ajudar. Porque, eu até moro em apartamento, mas sei acampar na beira do rio. E era também uma forma de contribuir com o movimento.

E foi ali, amarrando lonas que me interessei pelo moço.

Com o passar dos dias, cansativos e tensos dias, fui passando mais tempo pela ocupação. Finais de semana ou madrugadas de vigília

Eu estava passando por uma fase circense. Cambalhotas, bambolês e malabares. Essa praça precisa de arte! Andava com as bolas de malabares nos bolsos, brincando em cima do meio fio. Pai do Estevan brincou junto algumas vezes.

Não vou entrar nas questões políticas, que era o que nos reunia ali. Me detenho nas entre linhas.

Foram dias de uma aproximação que não aproximava nunca. (já falei em outro texto que sou tímida, que dizer, que carrego traços de uma cultura machista, onde mulheres não tomam iniciativa).

Era julho. Tinha uns dias de férias. Ia para Santa Maria. Na noite antes da partida, um e outro beijo. Eu não quis dormir lá. Eu e meu moralismo barato, que graças as minhas transformações vem se desmanchando.

Na volta, ocupação desocupada. Meu rolo desenrolado. Depois descobri. Outro rolo na jogada. Sem problemas. Não estou aqui para disputar ninguém. Nunca estive, nem estarei. Aproximações acontecem e desacontecem. São como flores e pássaros. Sem cercas, nem gaiolas.

Venham aqui os dois. Vocês deviam namorar.  Disse a Ediana. Sentados os três num lugar privado, no meio de uma "confraternização".

No fim de uma outra "confraternização", no meio da madrugada, nas ruas cheias de neblina de São Leopoldo,  combinamos. Eu, a ex-fugitiva dos namoros, devo ter sido a proponente. Vamos nos pegar até enjoar.

E logo já era 06 de setembro de 2013. Ele veio dormir aqui em casa. Chegou de mochila, no fim da tarde. Eu mateava na calçada.

Por volta das 6h do dia 07 de setembro, dia de Grito dos excluídos, a Deusa da fertilidade deu um tapinha nas costas do Estevan e disse: Desce e arrasa!

Buummm!
Tu toma pílula?
Não. Mas não é nada que uma pílula do dia seguinte não resolva. O corpo, desconhece essas bombas hormonais, certamente ia aceitar o efeito.


Depois disso foram três meses fugindo. Fugindo do pai. Fugindo do filho. Fugindo de mim.  Fugindo da vida. 


"Ocupa e resiste!"