terça-feira, 10 de maio de 2016

Do direito a paternidade

Os primeiros três meses de gestação foram enlouquecerdores... Insanos. Eu só conseguia pensar que tinha fudido com a minha vida e com a vida do pai do Estevan.

E se eu tiver o bebê. Vou contar? Não vou contar? Se o caminho fosse o aborto, eu já havia decidido. Seria solitário. Quer dizer. Não sei se dá para chamar de decisão as "escolhas" que a gente faz no meio do caos, mas enfim, seria assim. Em silêncio.

Muitas vezes pensei em ir embora de São Leopoldo. Uma tentativa de fugir do "problema".  Na época achei um concurso para professora em João Pessoa, na Paraíba. Quando fazia faculdade, queria muito fazer mestrado lá, pela referência que são em Educação Popular. Todo o desejo de morar lá borbulhou novamente em mim.  Pensei mesmo em me inscrever. Talvez até tenha preenchido a ficha de inscrição. Iria embora, grávida. Ninguém precisava saber como foi. Quando foi. Criaria a cria por lá. Sozinha.

 Como assim, criaria a cria por lá? Longe de todo mundo? E o direito dela em saber quem é o pai. E o direito do pai saber quem é ela. Eu não conseguiria viver com um segredo tão grande. Eu não achava que fosse justo com a criança viver com esse segredo. Ela tinha pai, tinha direito de saber sobre a paternidade.

Pensei muito sobre isso. Precisava ser uma questão bem pensada. Porque eu ia carregá-la por todos os dias da minha vida. Eu vou contar! Não acho justo que eles não saibam da existência um do outro.

E quando eu decidi sair do buraco em que eu havia entrado, tratei de chamá-lo para conversar. Marquei obstetra, o pré-natal já tinha três meses de atraso. E marquei um encontro com uma amiga que lê cartas e que, duas vezes já tinha anunciado uma gravidez na minha vida.

Meu encontro com ela acabou acontecendo primeiro. E foi bom. Falei do sentimento de incompetência por não ter abortado. Ela olhou firme nos meus olhos e disse "se tu quisesse mesmo abortar teria feito".  Hoje eu me dou conta que o não querer era mais medo do desconhecido. Medo de me doar para outra pessoa. Ela também falou do sentimento de culpa que eu carregava por aquela gestação. E me fez entender que eu não tinha feito aquele filho sozinha.

Uns dias depois encontrei com pai do Estevan. Eu não sabia que reação ele teria. Pensava que como eu tive três meses para começar a aceitar o fato de estar grávida, ele também tinha direito de ter o tempo que julgasse necessário para me dizer alguma coisa. Poderia ir embora naquela hora e voltar no outro dia, na outra semana, no outro mês, ou não voltar mais.

E depois de um tempo de conversa. Vamos criar então. Vamos criar! Hoje me dou conta da importância daquela frase para os meses seguintes de gestação. Hoje me dou conta de como aquela decisão, tomada de forma consciente, provoca movimentos positivos, ainda hoje no meu exercício da maternidade.