quinta-feira, 5 de maio de 2016

As manifestações de julho de 2013

Foto de Bg MundoReal - julho 2013

Há quem diga que as manifestações de julho de 20013 não deram em nada, mas Estevan está ai, quase completando dois anos para provar o contrário.

Mas antes de começar essa história, a história de hoje. A ideia do texto nasceu ontem, enquanto eu escrevia. É parte. Faz parte. Mas o dia, de hoje, passou e eu não consegui sair da cena inicial. A história não desenrolou. Resolvi passar na loja de produtos naturais e comprar ingredientes para fazer um bolo. Peguei Estevan, que com o mesmo sorriso que me deu tchau, estava me esperando. Passamos na padaria. E padaria não é só suco de laranja. É festa também. Saiu de lá tão empolgado que se perdeu na calçada e encontrou, com a testa, um canto de parede. Gelo. Pomada. Voltamos para casa. Cadê a chave? Perdi a chave. Fui no banco colocar créditos para ligar para o meu irmão, tirar saber onde andava, que horas chegava. Serviço indisponível. Pensei em sentar no chão e chorar um pouquinho. Justo hoje que estou de sacolas... tombo, colo, chaves? Vamos revisar as sacolas. Encontrei. Na sacola dos ingredientes do bolo. Chegando em casa. Colo, teta, sono. Nããooo, não pode dormir. E só agora, 00h30, eu sento aqui pra realizar meu propósito.

Então, voltamos as manifestações de julho de 2013. Foi lá que conheci o pai do Estevan.

Numa caminhada. Não lembro muito. Lembro que vi. O guri, que veio de Ijuí. Caminha aqui. Reúne lá. Caminha acolá. Passam os dias. Ocupa aqui. Ocupa lá. "NaRua São Leo" ocupa a praça em frente a câmara de vereadores. Eu não estava mergulhada na coisa, além do trabalho, tinha uma gestante em casa, mas passava pelo acampamento. Eram os primeiros dias, sai do trabalho e fui para a ocupação. O tempo se preparava para chover. Um bando de acampados de apartamento, vão amarrar lonas de que jeito? Pensava eu. O pai do Estevan não era acampado de apartamento. Sabia amarrar lonas. E eu metida, que nem era acampada, fui ajudar. Porque, eu até moro em apartamento, mas sei acampar na beira do rio. E era também uma forma de contribuir com o movimento.

E foi ali, amarrando lonas que me interessei pelo moço.

Com o passar dos dias, cansativos e tensos dias, fui passando mais tempo pela ocupação. Finais de semana ou madrugadas de vigília

Eu estava passando por uma fase circense. Cambalhotas, bambolês e malabares. Essa praça precisa de arte! Andava com as bolas de malabares nos bolsos, brincando em cima do meio fio. Pai do Estevan brincou junto algumas vezes.

Não vou entrar nas questões políticas, que era o que nos reunia ali. Me detenho nas entre linhas.

Foram dias de uma aproximação que não aproximava nunca. (já falei em outro texto que sou tímida, que dizer, que carrego traços de uma cultura machista, onde mulheres não tomam iniciativa).

Era julho. Tinha uns dias de férias. Ia para Santa Maria. Na noite antes da partida, um e outro beijo. Eu não quis dormir lá. Eu e meu moralismo barato, que graças as minhas transformações vem se desmanchando.

Na volta, ocupação desocupada. Meu rolo desenrolado. Depois descobri. Outro rolo na jogada. Sem problemas. Não estou aqui para disputar ninguém. Nunca estive, nem estarei. Aproximações acontecem e desacontecem. São como flores e pássaros. Sem cercas, nem gaiolas.

Venham aqui os dois. Vocês deviam namorar.  Disse a Ediana. Sentados os três num lugar privado, no meio de uma "confraternização".

No fim de uma outra "confraternização", no meio da madrugada, nas ruas cheias de neblina de São Leopoldo,  combinamos. Eu, a ex-fugitiva dos namoros, devo ter sido a proponente. Vamos nos pegar até enjoar.

E logo já era 06 de setembro de 2013. Ele veio dormir aqui em casa. Chegou de mochila, no fim da tarde. Eu mateava na calçada.

Por volta das 6h do dia 07 de setembro, dia de Grito dos excluídos, a Deusa da fertilidade deu um tapinha nas costas do Estevan e disse: Desce e arrasa!

Buummm!
Tu toma pílula?
Não. Mas não é nada que uma pílula do dia seguinte não resolva. O corpo, desconhece essas bombas hormonais, certamente ia aceitar o efeito.


Depois disso foram três meses fugindo. Fugindo do pai. Fugindo do filho. Fugindo de mim.  Fugindo da vida. 


"Ocupa e resiste!"